quinta-feira, 26 de março de 2015

Reminiscências de uma amiga ausente

Seguia a pé até o ponto de ônibus mais perto de casa, indo para o trabalho numa manhã nublada de segunda-feira quando, no caminho, deparei-me com um cão morto. O inocente bicho fora atropelado e seu corpo jogado no meio-fio às margens da BR-101, à frente de um posto de gasolina próximo à minha residência. A cena mexeu comigo. Não raro encontro animais mortos à beira da rodovia. O quão cruel uma pessoa pode ser, principalmente no trânsito! Nada justifica essa selvageria, seja com humanos ou animais.

Tal fato remontou-me à infância. Precisamente à tarde cinzenta no dezembro sufocante de 2001. A imprensa ainda buscava explicações para a queda das torres gêmeas nos Estados Unidos. O mundo recuperava-se a passos lentos da morte de tantos. Eu aprendia a lidar com um sentimento novo, perverso e perpétuo.

Estava na sala de casa, vazia, relembrando passagens felizes dos 11 anos que vivi em Porto Alegre, preparando-me para sair. Verão na capital gaúcha era sinônimo de mangueirada ou banho de piscina ao entardecer. Aquele dia não teve nada disso. Apenas um eco ensurdecedor.

A enorme e doce cadela rottweiler, também de 11 anos, rodeava minha despedida. Era minha fiel escudeira nas brincadeiras. Crescemos juntas. Com o tempo, ela tornou-se meu porto seguro quando as coisas não estavam bem ou a solidão varava meus dias. Alegrou-me durante o derradeiro ano sem a presença de meu pai, que aceitou a transferência da empresa e mudou-se para Santa Catarina. Logo eu e minha mãe nos juntaríamos a ele. 

Aquela situação aterrorizava-me. Por mais que tivesse passado 30 dias em Joinville no ano anterior, não conseguia acostumar-me com a nova cidade. Garoa incessante, ar úmido demais, ruas limpas e um povo calmo demais em contraste ao calor escaldante, ar seco, ruas sujas e vizinhança barulhenta característicos do bairro Sarandi. Voltaria a conviver com meus pais, enquanto abandonava um animal de estimação que tinha como irmã. 

Ciente do que acontecia, Latila há uma semana vagava cabisbaixa pelo pátio. A alegria cedera lugar a um semblante tristonho. Latila sabia que não nos veríamos tão cedo. Lembrei de quando tínhamos sete anos, das vezes em que eu sentava na rede nas férias de verão e acariciava-a. Um dia, preparava-me para comer um sanduíche de mortadela enquanto balançava-me. Como quem não quer nada, ela aproximou-se da mão em que eu segurava o prato e, num momento de descuido: Nhac! Lá se foi o pão. Ah, Latila, tão serelepe...

Prestes a partir definitivamente, minhas memórias dançavam enquanto o relógio corria. Minha mãe fechou a porta. Latila acompanhava nosso caminhar, silenciosa, absorta. Eu segurava as lágrimas. Queria evitar seu olhar, mas precisava ser forte e encará-la pela última vez. Desci a rampa, passei diante do cinamomo, a videira, a garagem, os canteiros. Latila passou ao meu lado e parou. Atravessei o portão carcomido pelas ferrugens que escondiam a tinta preta que um dia brilhou. E lá ficou ela, encarando-nos através das grades.

Ouvi o clique da maçaneta. Minha mãe entregava às chaves à Tia Ivone. Demos o tchau, caloroso e com a promessa de um breve retorno. Após 20 ou 30 passos nos paralelepípedos, olhei para trás. Nunca havia sentido tanta melancolia. Os versos da música Por Enquanto, de Renato Russo, regravada por Cássia Eller no Acústico MTV daquele ano, não saíam da minha mente: “Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar/ Que tudo era pra sempre/ Sem saber/ Que o pra sempre, sempre acaba”. Mirei naqueles grandes olhos castanhos, apertei a mochila e chorei. Segui à rodoviária com o coração partido.

Voltei um ano depois e encontrei Latila doente. Tudo havia mudado. O cinamomo foi podado. A casa de cor amarela passou a ser salmão. Os móveis dos meus tios deram outra cara à residência que abrigou-me por mais de uma década. Mas ela estava ali, os pelos negros conflitavam com os resistentes fios brancos. Quase não a reconheci. Novamente, eu a abandonaria. Ao ir embora, desferi-lhe um olhar com pesar ainda maior. E ela fitou-me detrás do portão, quase senil.

Não tardei a perdê-la. Seis meses depois, em solo catarinense, recebi a pior notícia naqueles quase 13 anos de vida: Latila não resistiu ao câncer e à saudade. Não estive ao seu lado quando mais precisava. Desde então, eu vivo com esse vazio. Ela, que tanto me seguia por todos os lugares. Foi a primeira grande lição da minha pré-adolescência: a perda de uma grande amiga. Descanse em paz, Latila, onde você estiver.

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