quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Momento de cinema: Sete?

Sete Vidas (Seven Pounds, 2008) é um prato cheio para os emotivos. A dobradinha Will Smith e Gabriele Muccino em mais um drama soma às nem um pouco sutis histórias de vida que o filme retrata. Resumindo o clichê: um melodrama que tem a redenção como tema, sob a bandeira da doação de órgãos.

Ben Thomas, ou Tim como prefere ser chamado, é vivido por Will Smith. Um norte-americano bem de vida e que ama a esposa. É dono de uma personalidade forte e bem questionável. É o que acontece numa cena em que agride o atendente de telemarketing cego Ezra Turner, interpretado habilmente por Woody Harrelson.

De início, não fica claro para o espectador os reais motivos que forçam Tim a testar um grupo de pessoas que compõem uma lista. Aos poucos, compreendemos que ele vive para ajudar tais pessoas, mas sabe que não poderá dar a vida àquelas que matou.

Tim provocou um acidente que ceifou sete vidas no passado. Sim, o título em português entrega a trama de bandeja. Entre as vítimas, a própria mulher dele. A partir disso, o personagem desapega da vida e busca se regenerar. E vamos desapegando do filme.

A história tem ótimos desdobramentos, que infelizmente não são bem desenvolvidos. O mesmo acontece com grande parte dos personagens. Pontos para a atuação sensível de Rosario Dawson na pele da delicada Emily, portadora de insuficiência cardíaca.

Previsivelmente, a carga emotiva se concentra nas últimas cenas. E a conclusão apresenta um dos momentos mais insensatos da película, envolvendo a água-viva que Tim encara todas as noites em seus apartamento. De tão fantasiosa, destoa da trama.

O roteiro do estreante Grant Nieporte é problemático e manipulador, deixando a desejar em diversos momentos. Mas é inegável que o lirismo e a poesia explorados em Sete Vidas sobressaem-se aos deslizes da projeção.

Nota: ★★★

Trailer oficial

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Ainda de 2008 - A arte de cavocar filmes

Glen Hansard e Markéta Irglová em cena do filme Once
Lembro que outrora dediquei muitos finais ao delicioso hábito de assistir filmes pré-Netflix. Seguia aleatoriamente às prateleiras repletas e estranhamente organizadas das videolocadoras de Joinville e fazia escolhas ao léu. Numa das vezes, descobri uma pérola musical chamada Once - Apenas Uma Vez. Em outro momento, fiquei atraída pelo subúrbio de Boston e a fantástica interpretação de Sean Penn no impiedoso Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood.

Também já senti na pele a loucura de Leonard Shelby em Amnésia, filme de Christopher Nolan. Aplaudi a atuação de Javier Bardem no premiado filme Mar Adentro, de Alejandro Amenábar. Emocionei-me com o mágico mundo de Totó, personagem de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore.

E na filmografia de Alejandro González Iñarritu pré-Birdman e com a colaboração do roteirista Guillermo Arriaga, fiquei na dúvida entre Amores Brutos, Babel e 21 Gramas. Elegi 21 Gramas como o melhor dos três. A escolha se justifica, entre outros aspectos, pelo roteiro coeso e a forte presença de Penn.

Em contraste, tive experiências bem distintas e até constrangedoras nas salas de cinema. O primeiro da lista, no final de 2008, foi Vicky Cristina Barcelona. Apesar das seguras atuações de Penélope Cruz, fenomenal como uma desvairada pintora Maria Elena, e do sedutor Bardem, somadas à bela fotografia, as meninas do título ficam aquém do esperado. Era o segundo contato com a vasta obra do diretor norte-americano Woody Allen, pois havia perdido sessões do Clube de Cinema na faculdade...

No âmbito das animações, naquele ano conferi Madagascar 2. Prefiro o primeiro filme da franquia. Vi Crepúsculo, decepção total. E por último Se Eu Fosse Você 2. Como era de se esperar, arraso de público de um lado, enredo pobre do outro. Ainda rendi-me à loucura gráfica de Sin City e o desesperador O Pianista - experiências distintas que encontram na violência um ponto comum. O primeiro citado, a gratuita e libertina; o segundo, a opressora e devastadora.

Algum dia, quem sabe, revisitarei muitos dos títulos citados. São tão merecedores da lista de favoritos quanto os distintos Um Estranho no Ninho, de Milos Forman; Terra em Transe, de Glauber Rocha; Pi, de Darren Aronofsky; Irreversível, de Gaspar Noé; Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci; Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick; A Cor Púrpura, de Steven Spielberg; O Cozinheiro, o Ladrão, a Mulher e seu Amante, de Peter Greenaway, outros filmes que acompanhei no turbulento ano de 2008.

Fotos: divulgação

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O Hipnotizador: uma viagem ao inconsciente

Os primeiros segundos de O Hipnotizador, nova produção em oito episódios da HBO Latin America em parceria da RT Features, já denunciam que a atmosfera onírica será uma constante na série.

A trama com ares fantásticos é baseada na HQ El Hipnotizador, criada pelos argentinos Pablo De Santis e Juan Sáenz Valiente.

Gravada inteiramente no Uruguai, a série tem direção compartilhada de Alex Gabassi (Psi) e José Eduardo Belmonte (Alemão).

Logo na abertura vemos uma mulher misteriosa, num bosque incerto, desnuda e desmaiada. Não temos certeza se é sonho, delírio ou experiência real do protagonista Natalio Arenas (o argentino Leonardo Sbaraglia), o solitário hipnotizador do título.

Passado, presente e futuro se fundem ao clima soturno da série. As panorâmicas lembram a arquitetura dos anos 1920-30, período entre guerras mundiais explorado em filmes como Meia-Noite em Paris e O Grande Gatsby.

Como na minissérie Amorteamo (Rede Globo), não sabemos onde a trama se passa. Apesar do idioma bilíngue completamente compreensível - que mistura português e espanhol - ser prova da ambientação na América do Sul.

Decifrar o passado de Arenas será a grande aventura de O Hipnotizador. Já temos as primeiras peças desse enigma. Na cena inicial, o protagonista se livra da morte forçando um homem a cometer suicídio. História que será retomada no final do episódio.

A misé-en-scene é condizente com o tema. Há boa dosagem de cenas envolvendo espelhos, iluminação contrastando tons claro e escuro similar a fotografias antigas, privilegiando luzes naturais como janelas de escritórios. Os tons escuros também se fazem presentes nas roupas e nos objetos cênicos.

O tempo manifesta-se através de elementos como metrônomos e relógios, este último que remete muito ao movimento surrealista.

As maçãs e serpentes, figuras bíblicas ligadas ao pecado e ao desejo, mostram que o caminho a seguir deve ser um traumático triângulo amoroso envolvendo o psiquiatra Darak, rival de Arenas interpretado pelo mexicano radicado no Brasil Chico Díaz, e a misteriosa Lívia (Juliana Didone).

O antagonista Darak utiliza a hipnose para controle de mentes e é o responsável por condenar Arenas à insônia eterna. Notando que o inimigo resiste, decide caçá-lo em momentos de transe.

Arenas luta com Darek em seu inconsciente para voltar a acessar suas memórias e libertar-se. Enquanto isso, dedica-se a adormecer pessoas e desenterrar seus segredos mais profundos. A trama se desenvolve vagarosamente, sem efeitos especiais berrantes ou coisas do gênero. A trilha evoca o suspense, ainda de forma pouco assertiva. Pelo piloto, criamos empatia por poucos personagens.

— O objetivo (de Arenas) é tentar encontrar várias peças do quebra-cabeças de sua vida que crê estarem perdidas, as experiências de que não consegue recordar. A cada novo caso, se dá conta da ajuda de que ele mesmo necessita — disse Sbaraglia em entrevista ao jornal Zero Hora.

O Hipnotizador dá preocupantes indícios de que poderá seguir o caminho de uma série procedimental quando uma jovem busca o auxílio de Arenas no teatro de revistas. Ela decide contratá-lo para saber o que há por trás dos pesadelos com um certo "Homem Pássaro". Apenas a atuação da atriz Christiana Ubach deixa a desejar em momentos cruciais das sessões de regressão. Um ponto a ser melhorado.


Além do núcleo teatral, temos a acertada dinâmica entre a camareira e o dono de hotel onde Arenas passa a morar. "Hotéis são feitos pra dormir [...] Se o sono falha, o hotel não serve", sentencia Salinero. O local parece que será palco de boas histórias sobrenaturais.

O elenco fixo ainda conta com as brasileiras Bianca Comparato (Anita) e Marisol Ribeiro (Carolina), o uruguaio César Trancoso (Salinero), e os argentinos Marilú Marine (Domingas) e Chino Darín (Gregório).

A série O Hipnotizador é exibida aos domingos, às 21 horas, no canal pago HBO. Veja o primeiro episódio na íntegra neste link.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Outros olhares - Quando Frank Sinatra não atuou em seu próprio perfil

Gay Talese expôs um Frank Sinatra sem firulas nos bastidores do especial A Man and His Music (NBC, 1965)

Gay Talese tem um estilo inconfundível e sedutor. Sabe tecer as linhas com palavras riquíssimas, diálogos simples e estonteantes. Mesmo quando não consegue entrevistar alguma personalidade cara a cara. Foi o que aconteceu em 1965, quando foi forçado a mudar o foco de um perfil. O “trabalho” era para a revista Esquire, sobre o ícone da música norte-americana Frances Albert Sinatra, ou apenas Frank Sinatra.
Diante da recusa do “alvo” em conceder entrevista, Talese demandou longas conversas com atores e músicos, executivos de estúdios e produtores musicais, donos de restaurantes e mulheres que mantinham contato com o The Voice, na luxuosa Los Angeles. Tais nuances permitiram-lhe construir um mosaico durante meses, que até hoje é tido como o ápice do Novo Jornalismo. 
Gay Talese
Em Frank Sinatra está Resfriado, o repórter não poupou críticas ao estrelismo do “Il Padrone”, como o cantor era conhecido entre os empregados. E não foi preciso inventar nada. A essência estava ali, nas extensas horas de conversas (e até confissões) com as pessoas que se deparava nos lugares frequentados por Sinatra. As situações presenciadas em estúdio ou onde Talese conseguia manter uma distância considerável de seu personagem receberam belos contornos do autor.
O ponto de partida foi uma enfermidade, capaz de abalar a vida de quem tem as cordas vocais como ferramenta de trabalho: o resfriado. O que faz pensar: assim como Sinatra depende da voz para viver, Talese depende da memória. E ele NÃO USA gravador. Cada papo é armazenado como uma pedra preciosa em seu cérebro.
Volta e meia, o jornalista é auxiliado por anotações em caderninhos, guardanapos, pedaços de camisetas. Vale viver o instante, apreender o necessário e dosar bem as escolhas lexicais. Isso tudo é observado nas descrições de roupas, ambientes, trejeitos dos personagens, situações estranhas, uma ambientação que aproxima o leitor e o deixa cada vez mais intrigado com a narrativa.

"Frank Sinatra parou o carro. O sinal estava vermelho. 
Os pedestres foram passando rapidamente a frente de seu pára-brisa, 
mas como sempre acontece, um dos passantes não foi embora"
 
Os detalhes são dignos de revista de fofoca. O tempo em que Talese passou rodeando a gravação do especial de TV para a emissora NBC (entre muitas sessões interrompidas pela voz falha do cantor) o permitiu conversar com quem aparecia em sua frente. Conseguiu informações importante, incluindo a infância conflituosa de Sinatra com a mãe italiana e a distante, mas afetuosa, relação com a filha Nancy.
O perfil publicado na revista Esquire não trouxe apenas detalhes sobre a vida de Frank Sinatra, mas histórias que desmistificam a aura “olimpiana” do artista. A cor de um sapato ou de uma jaqueta; a marca da bebida. Nada escapa ao seu olhar. Essa proximidade permitiu a Talese “entrar” na cabeça do famoso perfilado. Não é simplesmente ver o artista pelos outros. É tentar entender o que ele sente. 


Enfim, em lances únicos concebemos um ídolo dúbio, poderoso e impotente; carinhoso e sufocante. Ora delicado, ora bruto. Capaz de jogar catchup em um garçom, mudar as falas de um roteiro de cinema durante uma gravação, insultar quem estiver mal vestido. Sobretudo, sem deixar de ser elegante e genial ao soltar a voz no palco.
Gay Talese provou que não é preciso uma conversa direta para escrever um bom perfil. Sinatra é retratado pelos outros como um ser humano normal, com suas imperfeições e qualidades. A possibilidade de não entrevistar Sinatra trouxe todo o charme desta empreitada literária do premiado autor. 

Capa do artigo na revista Esquire, abril de 1966

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Damien Rice na trilha sonora da animação O Profeta

A Warner Bros. Records lançou a trilha de O Profeta no dia 31/7, incluindo canções de Damien Rice

    O irlandês Damien Rice é um dos meus cantores favoritos desde 2004, quando conheci The Blower's Daughter, música que ganhou destaque internacional ao fazer parte do filme Closer - Perto Demais, dirigido por Mike Nichols (1931-2014).
    Aqui na Brasil, a balada romântica integrou a trilha sonora da novela Belíssima, de Silvio de Abreu. Inclusive ganhou a versão em português É Isso Aí, interpretada por Ana Carolina e Seu Jorge.
    Há dois meses, Rice divulgou Hypnosis, que faz parte da trilha sonora da animação O Profeta (Kahlil Gibran's The Prophet). E hoje (3), ele lançou On Children (ouça as canções abaixo). O álbum ainda traz um dueto de Lisa Hannigan e Glen Hansard e o violoncelista Yo-Yo Ma. 
     No filme, o caminho da pequena Almitra se cruza com o de Mustafa, poeta preso por sua obra ser considerada subversiva. No mesmo dia do encontro inesperado, soldados levam Mustafa para um barco onde ele seguirá da ilha Orphalese ao país de origem. Almitra viaja em segredo até que um dia percebe o destino sombrio do amigo.
   O Profeta estreia dia 7 de agosto no Estados Unidos e continua sem previsão de lançamento no Brasil. O roteiro de Roger Allers se baseia em ensaios poéticos do escritor libanês Kahlil Gibran. A animação é dirigida por Allers e cineastas de vários países.
    O elenco de vozes tem Liam Neeson, Quvenzhané Wallis, John Krasinski, Alfred Molina, Frank Langella e Salma Hayek, que também é produtora. A trilha sonora é completada pelo compositor Gabriel Yared, vencedor do Oscar pelo trabalho em O Paciente Inglês (1996).
 
Hypnosis


On Children


Trailer oficial de O Profeta (em inglês)


Em tempo: Damien Rice dará uma passadinha no Brasil em outubro. Ele fará shows em Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro. Clique neste link para ver datas, locais e valores dos ingressos.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Reminiscências de uma amiga ausente

Seguia a pé até o ponto de ônibus mais perto de casa, indo para o trabalho numa manhã nublada de segunda-feira quando, no caminho, deparei-me com um cão morto. O inocente bicho fora atropelado e seu corpo jogado no meio-fio às margens da BR-101, à frente de um posto de gasolina próximo à minha residência. A cena mexeu comigo. Não raro encontro animais mortos à beira da rodovia. O quão cruel uma pessoa pode ser, principalmente no trânsito! Nada justifica essa selvageria, seja com humanos ou animais.

Tal fato remontou-me à infância. Precisamente à tarde cinzenta no dezembro sufocante de 2001. A imprensa ainda buscava explicações para a queda das torres gêmeas nos Estados Unidos. O mundo recuperava-se a passos lentos da morte de tantos. Eu aprendia a lidar com um sentimento novo, perverso e perpétuo.

Estava na sala de casa, vazia, relembrando passagens felizes dos 11 anos que vivi em Porto Alegre, preparando-me para sair. Verão na capital gaúcha era sinônimo de mangueirada ou banho de piscina ao entardecer. Aquele dia não teve nada disso. Apenas um eco ensurdecedor.

A enorme e doce cadela rottweiler, também de 11 anos, rodeava minha despedida. Era minha fiel escudeira nas brincadeiras. Crescemos juntas. Com o tempo, ela tornou-se meu porto seguro quando as coisas não estavam bem ou a solidão varava meus dias. Alegrou-me durante o derradeiro ano sem a presença de meu pai, que aceitou a transferência da empresa e mudou-se para Santa Catarina. Logo eu e minha mãe nos juntaríamos a ele. 

Aquela situação aterrorizava-me. Por mais que tivesse passado 30 dias em Joinville no ano anterior, não conseguia acostumar-me com a nova cidade. Garoa incessante, ar úmido demais, ruas limpas e um povo calmo demais em contraste ao calor escaldante, ar seco, ruas sujas e vizinhança barulhenta característicos do bairro Sarandi. Voltaria a conviver com meus pais, enquanto abandonava um animal de estimação que tinha como irmã. 

Ciente do que acontecia, Latila há uma semana vagava cabisbaixa pelo pátio. A alegria cedera lugar a um semblante tristonho. Latila sabia que não nos veríamos tão cedo. Lembrei de quando tínhamos sete anos, das vezes em que eu sentava na rede nas férias de verão e acariciava-a. Um dia, preparava-me para comer um sanduíche de mortadela enquanto balançava-me. Como quem não quer nada, ela aproximou-se da mão em que eu segurava o prato e, num momento de descuido: Nhac! Lá se foi o pão. Ah, Latila, tão serelepe...

Prestes a partir definitivamente, minhas memórias dançavam enquanto o relógio corria. Minha mãe fechou a porta. Latila acompanhava nosso caminhar, silenciosa, absorta. Eu segurava as lágrimas. Queria evitar seu olhar, mas precisava ser forte e encará-la pela última vez. Desci a rampa, passei diante do cinamomo, a videira, a garagem, os canteiros. Latila passou ao meu lado e parou. Atravessei o portão carcomido pelas ferrugens que escondiam a tinta preta que um dia brilhou. E lá ficou ela, encarando-nos através das grades.

Ouvi o clique da maçaneta. Minha mãe entregava às chaves à Tia Ivone. Demos o tchau, caloroso e com a promessa de um breve retorno. Após 20 ou 30 passos nos paralelepípedos, olhei para trás. Nunca havia sentido tanta melancolia. Os versos da música Por Enquanto, de Renato Russo, regravada por Cássia Eller no Acústico MTV daquele ano, não saíam da minha mente: “Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar/ Que tudo era pra sempre/ Sem saber/ Que o pra sempre, sempre acaba”. Mirei naqueles grandes olhos castanhos, apertei a mochila e chorei. Segui à rodoviária com o coração partido.

Voltei um ano depois e encontrei Latila doente. Tudo havia mudado. O cinamomo foi podado. A casa de cor amarela passou a ser salmão. Os móveis dos meus tios deram outra cara à residência que abrigou-me por mais de uma década. Mas ela estava ali, os pelos negros conflitavam com os resistentes fios brancos. Quase não a reconheci. Novamente, eu a abandonaria. Ao ir embora, desferi-lhe um olhar com pesar ainda maior. E ela fitou-me detrás do portão, quase senil.

Não tardei a perdê-la. Seis meses depois, em solo catarinense, recebi a pior notícia naqueles quase 13 anos de vida: Latila não resistiu ao câncer e à saudade. Não estive ao seu lado quando mais precisava. Desde então, eu vivo com esse vazio. Ela, que tanto me seguia por todos os lugares. Foi a primeira grande lição da minha pré-adolescência: a perda de uma grande amiga. Descanse em paz, Latila, onde você estiver.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Produção Retrô - 2008: RBS TV recebe visita de estudantes do Jardim Paraíso

Jaílsson, Simoni, José Nailton, Alessandra, Silmara, Suzielen, Gisele e os gêmeos André e Andrei. Todos moram no bairro Jardim Paraíso e estudam nas escolas Nagib Zattar e Rosa Maria Berezoski Demarchi. Na tarde de sexta-feira, 28 de novembro de 2008, essa turma conheceu os estúdios da RBS TV Joinville e da rádio Atlântida, supervisionados pelos professores Juciano Lacerda, do Bom Jesus/Ielusc, e Aurora Zimmermann, da Escola Municipal Professora Rosa Maria Berezoski.

Os estudantes participaram do projeto de Vídeo-Participação no Jardim Paraíso. Segundo Juciano Lacerda, também proponente do projeto, apresentar o funcionamento da emissora de televisão partiu das oficinas ministradas por Roberta Meyer, professora de Telejornalismo do Ielusc. “A Roberta mostrava muitas reportagens para eles. Até que surgiu a ideia de visitar a RBS TV, para eles conhecerem como é a produção de um telejornal”, conta. Ao total, 20 adolescentes foram convidados. Em virtude da chuva, apenas nove puderam comparecer.

Estudantes sobem as escadarias. Às 18 horas, na recepção da RBS TV, todos ficam na expectativa
do que há por trás das escadarias. Logo chega o jornalista Rafael Custódio, que guia o grupo até a ilha de edição. O coordenador de jornalismo Jefferson Douglas não se encontra. Está em Blumenau, reforçadando a equipe na cobertura das enchentes que atingiram, em especial, o Vale do Itajaí nas últimas semanas.

Rafael Custódio explica com funciona a ilha de edição. Com olhares atentos e fixos, os adolescentes acompanham as explicações de Rafael Custódio e do repórter João Venturi sobre pauta, produção de matérias, edição, espelho do jornal e tecnologias empregadas nas transmissões dos telejornais da emissora. Os jornalistas falam da mudança do perfil editorial dos telejornais, e esclarecem dúvidas sobre o novo logotipo da
RBS TV: voltado a implantação da TV Digital em Santa Catarina no ano que vem.

Os adolescentes ficam tímidos. Um ou dois fazem perguntas. O foco do bate-papo são as enchentes. Venturi explica que, nesse momento, a RBS TV e a afiliada nacional - Rede Globo - voltam às atenções à Blumenau. A preferência são por reportagens produzidas no Vale do Itajaí, reduzindo ainda mais o espaço do jornal destinado à região norte.

Venturi fala do ponto eletrônico que o apresentador usa para se comunicar com técnicos.Venturi mostra o estúdio, utilizado para Jornal do Almoço e
RBS Notícias. Apenas a posição da câmera muda, o que dá a impressão do telespectador de que se trata de outro cenário. Uma das meninas fica assustada com as câmeras utilizadas na emissora, diferente do que usaram durante a produção dos curtas-metragens. “Juciano, ele deixou a gente no chinelo com esse aí”, comenta. Juciano responde: “Quando vocês crescerem, vão ter uma dessas".
Antes de iniciar a transmissão ao vivo, os adolescentes conhecem o estúdio da Atlântida. Muitos ficam admirados com o tamanho reduzido do local.

Jaílsson, André, Juciano, Andrei e Custódio trocam experiências.No retorno para o estúdio, câmeras, celulares e aparelhos
eletrônicos são desligados. Ninguém pode fazer barulho. Às 19 horas, inicia o RBS Notícias. Em menos de três minutos, Custódio apresenta as matérias do dia, cuja produção foi acompanhada pelos visitantes. Venturi e Custódio ainda posam para fotos e conversam rapidamente com os estudantes. A visita é selada com uma
fotografia, ao lado de Custódio na bancada do estúdio.