quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Outros olhares - Quando Frank Sinatra não atuou em seu próprio perfil

Gay Talese expôs um Frank Sinatra sem firulas nos bastidores do especial A Man and His Music (NBC, 1965)

Gay Talese tem um estilo inconfundível e sedutor. Sabe tecer as linhas com palavras riquíssimas, diálogos simples e estonteantes. Mesmo quando não consegue entrevistar alguma personalidade cara a cara. Foi o que aconteceu em 1965, quando foi forçado a mudar o foco de um perfil. O “trabalho” era para a revista Esquire, sobre o ícone da música norte-americana Frances Albert Sinatra, ou apenas Frank Sinatra.
Diante da recusa do “alvo” em conceder entrevista, Talese demandou longas conversas com atores e músicos, executivos de estúdios e produtores musicais, donos de restaurantes e mulheres que mantinham contato com o The Voice, na luxuosa Los Angeles. Tais nuances permitiram-lhe construir um mosaico durante meses, que até hoje é tido como o ápice do Novo Jornalismo. 
Gay Talese
Em Frank Sinatra está Resfriado, o repórter não poupou críticas ao estrelismo do “Il Padrone”, como o cantor era conhecido entre os empregados. E não foi preciso inventar nada. A essência estava ali, nas extensas horas de conversas (e até confissões) com as pessoas que se deparava nos lugares frequentados por Sinatra. As situações presenciadas em estúdio ou onde Talese conseguia manter uma distância considerável de seu personagem receberam belos contornos do autor.
O ponto de partida foi uma enfermidade, capaz de abalar a vida de quem tem as cordas vocais como ferramenta de trabalho: o resfriado. O que faz pensar: assim como Sinatra depende da voz para viver, Talese depende da memória. E ele NÃO USA gravador. Cada papo é armazenado como uma pedra preciosa em seu cérebro.
Volta e meia, o jornalista é auxiliado por anotações em caderninhos, guardanapos, pedaços de camisetas. Vale viver o instante, apreender o necessário e dosar bem as escolhas lexicais. Isso tudo é observado nas descrições de roupas, ambientes, trejeitos dos personagens, situações estranhas, uma ambientação que aproxima o leitor e o deixa cada vez mais intrigado com a narrativa.

"Frank Sinatra parou o carro. O sinal estava vermelho. 
Os pedestres foram passando rapidamente a frente de seu pára-brisa, 
mas como sempre acontece, um dos passantes não foi embora"
 
Os detalhes são dignos de revista de fofoca. O tempo em que Talese passou rodeando a gravação do especial de TV para a emissora NBC (entre muitas sessões interrompidas pela voz falha do cantor) o permitiu conversar com quem aparecia em sua frente. Conseguiu informações importante, incluindo a infância conflituosa de Sinatra com a mãe italiana e a distante, mas afetuosa, relação com a filha Nancy.
O perfil publicado na revista Esquire não trouxe apenas detalhes sobre a vida de Frank Sinatra, mas histórias que desmistificam a aura “olimpiana” do artista. A cor de um sapato ou de uma jaqueta; a marca da bebida. Nada escapa ao seu olhar. Essa proximidade permitiu a Talese “entrar” na cabeça do famoso perfilado. Não é simplesmente ver o artista pelos outros. É tentar entender o que ele sente. 


Enfim, em lances únicos concebemos um ídolo dúbio, poderoso e impotente; carinhoso e sufocante. Ora delicado, ora bruto. Capaz de jogar catchup em um garçom, mudar as falas de um roteiro de cinema durante uma gravação, insultar quem estiver mal vestido. Sobretudo, sem deixar de ser elegante e genial ao soltar a voz no palco.
Gay Talese provou que não é preciso uma conversa direta para escrever um bom perfil. Sinatra é retratado pelos outros como um ser humano normal, com suas imperfeições e qualidades. A possibilidade de não entrevistar Sinatra trouxe todo o charme desta empreitada literária do premiado autor. 

Capa do artigo na revista Esquire, abril de 1966

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